05 agosto, 2016

SINDROME PRÉ-MENSTRUAL X PRÁTICA ESPORTIVA ...

Apesar do grande aumento do número de mulheres no esporte, é escassa a literatura sobre aspectos anatômicos, psicológicos e principalmente hormonais que afetam o desempenho das mulheres praticantes de exercício físico. Embora existam muitas pesquisas relatando como o exercício afeta a menstruação, são poucos os estudos de como o ciclo menstrual interfere no desempenho feminino.A inserção das mulheres brasileiras no mundo do esporte data de meados do século XIX. No entanto, é a partir das primeiras décadas do século XX que a participação se amplia, adquirindo maior visibilidade, juntamente com os ecos das lutas femininas vindos da Europa(3).


Os benefícios da atividade física são comprovados em ambos os sexos, porém, a mulher apresenta aspectos próprios que incluem variações no perfil hormonal, incidência de afecções próprias ao gênero, além das respostas fisiológicas e orgânicas ao exercício(4).

Existem diferenças entre os sexos quanto à fisiologia do exercício, mesmo antes da puberdade, que se exacerbam durante a adolescência e a vida adulta. Essas ocorrem fundamentalmente em função de tamanho e composição corporal. Mais especificamente, os homens possuem maior massa muscular em termos absolutos e relativos (por peso corporal total), enquanto mulheres possuem maior percentual de gordura corporal. Isso resulta no homem em menor eficiência termorregulatória quando pratica exercícios em ambientes quentes(5).

Uma questão importante quando estudamos a mulher atleta diz respeito a possíveis alterações hormonais, portanto, alterações menstruais, como: amenorreia, oligomenorreia e anovolução, decorrentes de esquemas de treinamento mal-orientados e exercícios em volume inadequado(6,7). Embora existam muitos estudos correlacionando o exercício e as alterações menstruais, são poucos os que avaliam o quanto as diferentes fases do ciclo menstrual interferem no desempenho feminino, especialmente se levarmos em conta que as respostas fisiológicas da mulher sofrem alterações ao longo do ciclo hormonal. Por sua vez, a maioria dos estudos que citam a relação do desempenho com o ciclo menstrual(8,9,10) não leva em consideração as diferentes afecções, como as moléstias perimenstruais(11).

As moléstias perimenstruais são classificadas em: síndrome pré-menstrual (SPM), síndrome intermenstrual (SIM), disforia luteal, dismenorreia e depressão do climatério(12).

A síndrome pré-menstrual agrupa mais de 150 sintomas, que ocorrem de maneira variada e inconstante(13). Inicialmente, a chamada tensão pré-menstrual (TPM) foi identificada como uma entidade clínica, quando, em 1931, Robert Frank(14) a descreveu como um estado de irritabilidade e sentimento de desassossego e mal-estar de indescritível tensão, que se apresenta sete a 10 dias antes da menstruação.

Posteriormente, em 1953, sugeriu-se a alteração do nome para síndrome pré-menstrual, justificando que a tensão era apenas um dos sintomas dessa síndrome(15). Considera-se atualmente a síndrome pré-menstrual como um grupo de mudanças físicas e comportamentais que podem afetar algumas mulheres num período de mais ou menos uma semana antes da menstruação(16).

Moss(17), em 1968, listou 47 sintomas da síndrome pré-menstrual. O instrumento talvez mais rigorosamente elaborado dentre as escalas de avaliação diária de sintomas da síndrome pré-menstrual é o Registro de Sintomas Diários, publicado por Freeman et al.(2), composto por 17 sintomas, com escala de 0 a 4, de acordo com a gravidade de cada sintoma.

Embora a prevalência verdadeira da SPM seja desconhecida, no Brasil, estudos mostram que entre 8% e 86% das mulheres apresentam alguma alteração, dependendo da intensidade dos sintomas(13).

Em estudo realizado em ambulatório de ginecologia, os sintomas pré-menstruais relatados entre as mulheres com a forma grave (43,3%) foram: irritabilidade (86%), cansaço (71%), depressão e cefaleia (62% cada); 95% das mulheres estudadas apresentavam mais de um sintoma e 76%, associação de sintomas físicos e psíquicos(18).

A magnitude desses números permite inferir que essas alterações podem interferir na vida das atletas, de modo que é essencial considerar a influência da SPM na capacidade de realizar exercícios físicos, tanto em competições com em eventos não competitivos. Canty(19) foi o primeiro a relacionar a SPM e o exercício físico.

Alguns estudos revelam que exercícios regulares podem minimizar algumas dores e também o estresse causado pela SPM durante uma ou até duas semanas antes do período menstrual.

No estudo transversal de Stoddard et al(20), o exercício reduziu o sintoma de aflição, retenção líquida e dor, além de reduzir o pico de estrona na urina e o nível do pregnanediol, que é uma quantificação indireta dos níveis de progesterona no organismo.

Alguns pesquisadores relataram que no período pré-menstrual ocorre redução na capacidade de concentração, além de fadiga muscular e nervosa mais rápida. Assim como acontece com atividades aeróbias, o rendimento no treinamento de força é diferente nas diversas fases do ciclo menstrual. Na fase estrogênica (pós-menstrual) o rendimento é melhor do que na progestogênica (pré-menstrual), na qual as atletas ficam irritadas e menos pacientes com os treinos(21).

Embora o estudo da potência anaeróbia incluindo, consequentemente, a resistência muscular assuma em vários esportes grande importância, são poucos os estudos relacionando essa variável com o ciclo menstrual e suas alterações(8).

Lebrun et al.(21) acreditam que os melhores desempenhos geralmente ocorreram nos dias imediatamente após a menstruação, com piora do desempenho durante o intervalo pré-menstrual e os primeiros dias do fluxo menstrual. Mas esses resultados para eles, são difíceis de interpretar devido aos sintomas pré-menstruais, às flutuações fisiológicas, ao pequeno número de mulheres estudadas e à variação de níveis de aptidão entre elas.

Muitas das informações disponíveis sobre esse tópico se fundamentam em casos ou afirmações subjetivas, feitas por atletas durante investigações informais. Isso mostra a importância de serem feitos mais estudos para um conhecimento mais completo, pois não há ainda métodos de laboratórios seguros para a diagnose da condição de SPM e sua interferência na prática esportiva(15).

A SPM em atletas indica a necessidade de uma avaliação individualizada, lembrando que aspectos biológicos, psicoemocionais, sociais, culturais e comportamentais estão imbricados e necessitam serdesvendados.

Texto: Alexandra M. David; Zsuzsana Jármi Di Bella; Eliezer Berenstein; Antônio Carlos Lopes; Mauro Vaisberg
Fonte e Referências: Revista Brasileira de Medicina do Esporte - vol.15 no.5 Niterói set./out. 2009

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