30 abril, 2015

ALTERAÇÃO DA RELAÇÃO TESTOSTERONAxCORTISOL INDUZIDA PELO TREINAMENTO DE FORÇA EM MULHERES .'.

A razão entre a concentração de testosterona e cortisol (T:C) é freqüentemente utilizada como indicativo do nível de estresse imposto pelo exercício. Alterações na concentração destes hormônios são responsáveis por modular diversas respostas induzidas pelo treinamento, como hipertrofia e ganho de força. O objetivo do presente estudo foi examinar a influência do protocolo de treinamento de força, conhecido como múltiplas-séries (MS), sobre o ganho de força, de resistência muscular localizada e a relação entre a concentração de hormônios catabólicos (cortisol) e anabólicos (testosterona). Para testar esta hipótese cinco jovens do sexo feminino com um ano de experiência em treinamento de força foram submetidas ao protocolo MS. As amostras de sangue foram coletadas antes e imediatamente após o exercício, no primeiro dia e após oito semanas de treinamento. Os testes de 1-RM e de repetições máximas foram realizados também no início e ao final das oito semanas de treinamento de força. Não foram observadas alterações na massa corporal, no IMC, na percentagem de massa gorda e na força máxima (1-RM) no supino, no agachamento e na rosca direta. O número de repetições máximas a 50% de 1-RM foi aumentado apenas para o supino (p < 0,05). Não foi observada alteração na concentração de testosterona total. Com relação à concentração plasmática de cortisol, após oito semanas de treino, na situação de repouso, foi reduzida (38% – p < 0,05). Em conseqüência da atenuação da secreção de cortisol após oito semanas de treinamento, a razão T:C apresentou elevação de 20% na situa- ção de repouso (p < 0,05). Apesar de não terem sido detectadas alterações funcionais nos testes de 1-RM e repetições máximas, o método MS induziu um quadro hormonal favorável ao anabolismo protéico. INTRODUÇÃO O treinamento de força vem conquistando grande número de mulheres, tornando-se importante componente do programa para promoção da aptidão física. Atualmente, existem vários protocolos de treinamento de força para melhorar diferentes aspectos do sistema neuromuscular(1); entretanto, a maioria destes métodos se originou da observação empírica, sem comprovação científica(2). A diferença entre esses protocolos de treinamento é a forma como as variáveis agudas (intensidade, o volume, o período de descanso entre as séries e a ordem dos exercícios) são dispostas(2,3). Apesar de muita controvérsia sobre a superioridade de um método sobre o outro, os estudos que avaliaram a eficiência e as adaptações provocadas por estes sistemas de treinamento a longo prazo são escassos(4). As evidências iniciais disponíveis na literatura indicam que as respostas hormonais ao treinamento de força (ex.: aumento da concentração de hormônio do crescimento ou a taxa testosterona para cortisol) estão bem correlacionadas com mudanças no tamanho do músculo, assim como sua capacidade de gerar tensão(5). Em outras situações também é possível se observar a modulação exercida pelo sistema endócrino sobre as adaptações musculares. Por exemplo, as patologias relacionadas ao sistema endócrino, como a síndrome de Cushing (marcada pela hipersecreção de cortisol), podem induzir supressão da síntese miofibrilar de proteínas, acompanhado de deterioração das diferentes manifestações de força(6,7). Por outro lado, o aumento da concentração de hormônios como GH e testosterona estimulam o crescimento da massa muscular(7,8). Considerando que a manipulação das variáveis do treino (volume, intensidade, período de descanso e ordem dos exercícios) é capaz de interferir sobre as respostas hormonais, que, por sua vez, são responsáveis pela ampliação da síntese protéica adaptativa(9), o objetivo do presente estudo foi examinar a influência do protocolo de treinamento de força (método de múltiplas séries – MS) sobre o ganho de força, resistência muscular localizada e ainda sobre a relação entre a concentração plasmática de testosterona e cortisol em mulheres. DISCUSSÃO O intuito de nosso trabalho foi verificar a influência do método MS sobre a composição corporal, sobre parâmetros funcionais (testes de força máxima (1-RM) e de repetições máximas a 50% do valor de 1-RM) e sobre a relação entre testosterona e o cortisol (T:C) em mulheres. Esta relação (T:C) tem sido amplamente utilizada como indicativo de adaptação e/ou excesso de sobrecarga. Nossos dados demonstraram que não houve alteração significativa na composição corporal dos participantes (tabela 1). Além disso, também não foram detectadas alterações de desempenho no teste de 1-RM (para os exercícios de supino, agachamento e rosca direta) (tabela 2), bem como, no teste de repetições máximas a 50%-1RM para os mesmos exercícios, com exceção do supino (tabela 3). Na coleta inicial não foi verificado aumento na concentração de cortisol pós-exercício (tabela 4). Kraemer et al.(14) também reportaram esta mesma resposta aguda após a realização do exercício de força em mulheres. Estes autores acreditam que provavelmente o aumento do cortisol acontecerá na recuperação, indicando um atraso na secreção de cortisol pós-treino em mulheres. Marx et al.(4), assim como nós, demonstraram redução do cortisol circulante após oito semanas de treinamento de força em mulheres na situação de repouso. A repetição do estresse fisiológico imposto pelo exercício realizada no treinamento físico é correlacionada a alteração na sensibilidade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal(15-18). Em alguns estudos, indivíduos treinados demonstraram aumento na sensibilidade da hipófise e do córtex da adrenal ao hormônio liberador de corticotropina (CRH), enquanto em outros foi reportado decréscimo(19). Conforme demonstrado por Luger et al.(15), corredores de elite demonstraram atenuação da resposta de secreção do hormô- nio adrenocorticotrópico (ACTH) e cortisol a administração exógena de CRH. Provavelmente, a redução do cortisol observada após oito semanas de treinamento MS na situação de repouso, conforme observado anteriormente(4,14), estaria relacionada à modulação exercida pelo eixo hipotálamo-hipófise-adrenal(15). Da mesma forma que no nosso estudo, Marx et al.(4) também observaram aumento na razão T:C após oito semanas de treinamento durante o repouso (tabela 4). Entretanto, ao contrário dos nossos resultados, estes autores verificaram aumento na concentração circulante de testosterona total. Porém, esta resposta de aumento da testosterona é controversa. A concentração de testosterona em diversos outros estudos também permaneceu inalterada(20,21). Bosco et al.(22) recentemente propuseram uma associação entre a concentração de testosterona e a redução da atividade neural durante uma sessão de treinamento de força de alta intensidade realizado em homens. Em função disso, estes autores concluíram que a testosterona (em concentração adequada) poderia compensar a fadiga de fibras rápidas (presente à medida que a sessão de treino avança), garantindo, assim, menor eficiência neuromuscular. Os nossos resultados demonstram aumento na relação T:C (tabela 4), indicando que o quadro metabólico induzido pelo método MS é favorável ao anabolismo protéico(23,24). Após oito semanas de treinamento de força, os participantes apresentaram aumento significativo nessa relação, fato que pode ser explicado principalmente pela redução da concentração de cortisol. A redução do cortisol circulante após o treinamento de força tem sido reportado tanto em homens(14,25) quanto em mulheres(4,14). Esta queda pode ser relevante para inibição do catabolismo protéico e favorecimento da agregação de proteínas pela redução da sua degradação. Esta resposta pode ser especialmente importante para as fibras do tipo I, que dependem mais da redução da degradação protéica como mecanismo primário responsável pela sua hipertrofia(26). Apesar de não ter sido detectada alteração significativa nos parâmetros funcionais e de composição corporal, isto não descarta a influência exercida pelas alterações hormonais. Provavelmente, as adaptações estruturais (síntese e agregação de proteínas contráteis) que possibilitem o ganho de força e resistência muscular necessitem de mais de oito semanas para ocorrer. Possivelmente, o caráter positivo da razão T:C a longo prazo propiciará o surgimento e desenvolvimento de tais adaptações. A redução na concentração de testosterona, em conjunto com o aumento na concentração de cortisol, ocorre em períodos de treinamento extenuante. Atualmente, acredita-se que a concentração de testosterona para cortisol (relação T:C) seja um indicador fisiológico da sobrecarga de treinamento, à qual o indivíduo está exposto no período, mas ela não necessariamente indica síndrome de overtraining(9,23,24). Viru e Viru(9) destacam que essa mudança é claramente um indicativo de overeaching, mas não de overtraining. O decréscimo da relação T:C pós-treino evidenciada no nosso estudo, após oito semanas de treinamento utilizando o método MS, sugere que este estímulo representou uma sobrecarga intensa, de caráter pontual, ao organismo. Porém, o restabelecimento positivo da relação T:C na situação de repouso, após oito semanas de treinamento, sugere a ocorrência do mecanismo de supercompensação. Apesar dos nossos resultados indicarem que o método MS é capaz de modular a relação T:C em mulheres, é importante ressaltar que o reduzido número de participantes (n = 5) e a curta duração do presente estudo (oito semanas) são fatores limitantes para conclusões definitivas. Outra limitação do presente estudo foi a ausência de um grupo controle. Indubitavelmente, ainda são necessários estudos adicionais para verificar a influência de diferentes protocolos de treinamento de força sobre o estresse imposto ao organismo e sua subseqüente capacidade de resposta-compensação a longo prazo. CONCLUSÃO Nossos dados reforçam a idéia da importância do controle correto das variáveis agudas relacionadas à prescrição do treinamento de força. Acreditamos que é imprescindível estabelecer quais protocolos de treinamento apresentam o potencial de promover adaptações positivas, sem o estabelecimento de condições deletérias. O decréscimo na relação T:C, após a sessão de treino, observado no final do estudo, sugere que método de treinamento de força utilizado representa um estímulo intenso para o organismo. Entretanto, a recuperação da relação T:C evidenciada na situação de repouso após oito semanas de treinamento sugere a ocorrência do mecanismo de supercompensação. Através deste resultado, podemos constatar que o método MS, ao final de oito semanas, parece induzir um quadro hormonal favorável ao anabolismo protéico no repouso. Texto: Marco Carlos Uchida1, Reury Frank Pereira Bacurau, Francisco Navarro, Francisco Luciano Pontes Jr., Vitor Daniel Tessuti, Regina Lúcia Moreau, Luís Fernando Bicudo Pereira Costa Rosa e Marcelo Saldanha Aoki1, Fonte: Rev Bras Med Esporte _ Vol. 10, Nº 3 – Mai/Jun, 2004


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