23 maio, 2012

MASSA MUSCULAR, MAIS PROTEINA OU MAIS CARBOIDRATO ???

Objetivo: verificar se o treino de musculação associado ao aumento da ingestão de proteína promove maior aumento de massa e força quando comparado a um aumento na ingestão de carboidrato. Os benefícios proporcionados pela prática de exercícios regulares são bem documentados(1). Em se tratando especificamente dos exercícios com pesos, evidências científicas respaldam que um programa adequado de treinamento induz inúmeros benefícios, tais como: melhorias na resposta da insulina à sobrecarga de glicose e na sensibilidade à insulina, menor probabilidade de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, entre outros(2). No entanto, a grande maioria dos indivíduos adultos jovens que aderem a programas regulares de exercícios com pesos têm maior preocupação estética, que se resume ao aumento da força e massa musculares, que não necessariamente se restringem aos limites fisiológicos benéficos à saúde. Para tanto, anualmente são lançados no mercado inúmeras dietas e suplementos protéicos que visam atuar como sinergistas no ganho de massa muscular por meio do treinamento com pesos.

Justificativa
Levando-se em consideração a forma indiscriminada pela qual os indivíduos aderem às dietas e suplementos por tempo indeterminado(3,4), sem comprovação se tais estratégias irão atuar como sinergistas no aumento da massa muscular e força, o presente trabalho procura verificar se a suplementação protéica aliada à prática de atividade com pesos é realmente mais eficaz no aumento da força e massa muscular quando comparada com indivíduos que receberam a mesma suplementação isocalórica na forma de carboidrato.
Objetivo
Verificar se os efeitos de uma dieta hiperprotéica (4g.kg1.d1), associada a um programa de exercícios com pesos de alta intensidade, provocam maior aumento da massa muscular e força quando comparados com o padrão dietético normoprotéico em indivíduos suplementados com carboidrato na mesma quantidade calórica do grupo que recebeu proteína.
DISCUSSÃO
Verificou-se que o grupo HP apresentou ingestão de 32,1% (4g.kg1.d1) de proteína e 37,4% de carboidrato, e o grupo NP ingeriu 14% de proteína (1,8g.kg-1.d-1) e 63% de carboidrato. Segundo Lemon et al.(10), 0,89g.kg-1.d-1de proteína são necessários para manter o balanço nitrogenado positivo em indivíduos sedentários, porém, para atletas de endurance e indivíduos que praticam exercícios com peso, esse balanço positivo ocorre com a ingestão de 1,2-1,5g.kg1.d1, respectivamente.
Os resultados apresentados pelo teste t pareado demonstram que a suplementação e a atividade física foram eficientes dentro de cada grupo na promoção do aumento da massa e área de secção transversa musculares e do aumento de força após oito semanas.
Tarnopolsky et al.(11) verificaram que quando a ingestão protéica da dieta aumenta de 0,86 para 1,4g.kg-1.d-1, a síntese protéica aumenta em homens submetidos ao treinamento com peso, mas quando a ingestão é superior a 2,4g.kg-1.d-1, nenhuma diferença significativa foi encontrada; no entanto, os autores não utilizam a suplementação com carboidrato para que se possa fazer alguma comparação. Não foram encontradas diferenças significativas para os dados antropométricos, para as variáveis de força e para as análises de insulina.
É importante ressaltar que a coleta foi realizada após um período de 12 horas de jejum, não representando, dessa forma, o efeito agudo provocado logo após a sessão de treinamento, como é realizada por diversos autores.
No presente trabalho foram verificadas diferenças significativas nas concentrações de cortisol; o grupo NP apresentou uma diminuição de 18,1%, e o grupo HP, um aumento de 33,6%. Thyfault et al.(12) verificaram o efeito agudo da suplementação com carboidrato líquido (1g.kg-1.d-1, antes e após a atividade) ou suplementação com placebo associados ao exercício com peso (dois dias de treinamento). Foram analisadas as concentrações de cortisol, insulina, amônia e glicose. Verificou-se aumento nas concentrações de insulina após o exercício e após uma hora e meia do término da atividade. Não houve diferença significativa para os outros hormônios quando os dois grupos são comparados.
De acordo com a análise de correlação, acredita-se que o aumento de força para o exercício tríceps francês esteja diretamente associado ao aumento da massa muscular e da ingestão de carboidrato no grupo NP. Por meio das análises, demonstrou-se que o grupo NP apresentou maior aumento da área de secção transversa muscular, quando comparado com o grupo HP.
Rozenek et al.(13) submeteram dois grupos ao treinamento com pesos (quatro séries de oito repetições a 70% de 1-RM, 10 exercícios, durante oito semanas) e suplementação. Um grupo recebeu 356g de glicose e 3,0g.kg-1de proteína e o outro grupo recebeu 450g de carboidrato e 1,7g.kg-1.d-1 de proteína (grupo placebo), totalizando o equivalente a 2.020kcal a mais por dia. Não houve diferença significativa na avaliação da massa muscular, percentagem de gordura e força entre os grupos. Os autores levantaram a hipótese de que deve haver um limite de otimização da proteína ingerida e que, provavelmente quando esse limite é extrapolado, não há benefícios para o ganho de força e massa muscular.
Apesar de não terem sido realizadas certas dosagens que pudessem precisar este fato, acredita-se que a alta concentração de proteína (4g.kg-1.d-1) tenha provocado um desequilíbrio no ciclo de Krebs, para produção energética pela falta do substrato carboidrato, aumentando as concentrações de corpos cetônicos, aumento nas concentrações do cortisol, comprometendo a síntese protéica. Em contrapartida, verificou-se no grupo NP uma diminuição nas concentrações de cortisol, acompanhada pela correlação positiva entre a ingestão do carboidrato e o aumento da área de secção transversa muscular, sugerindo que a suplementação com carboidrato (225g.d-1), associada à ingestão protéica de 1,8g g.kg-1.d-1 e ao treinamento com pesos, é favorável ao aumento da síntese protéica. Acredita-se que a correlação positiva existente entre as variáveis antropométricas e somente a ingestão de carboidrato sejam decorrentes do aumento nas concentrações de insulina após o consumo, resultando em diminuição nas concentrações de cortisol cronicamente, favorecendo o anabolismo para a síntese protéica.
CONCLUSÃO
O grupo NP apresentou correlação positiva entre a ingestão de carboidrato e o aumento da área muscular e força para o exercício tríceps francês. Segundo os resultados apresentados, os indivíduos suplementados com carboidrato (225g.d-1) associado à ingestão protéica de 1,8g.kg-1.d-1, quando submetidos ao treinamento com peso, apresentaram maior aumento da massa muscular quando comparados com os indivíduos submetidos ao mesmo treinamento suplementados com 4g.kg-1.d-1. Serão necessários mais estudos para elucidar o papel da proteína e do carboidrato na promoção da síntese protéica em praticantes de exercício com peso. Não se sabe ao certo o mecanismo que envolve a elevada suplementação com proteína no processo de ganho muscular e força.
REFERÊNCIAS
1. U.S. Department of Health and Human Services. Physical Activity and Health: A Report of the Surgeon General. Atlanta, GA: Centers for Disease Control and Prevention (CDC), National Center for Chronic Disease Prevention and Health Promotion, 1996. 
2. Hurley BF, Hagberg JM. Optimizing health in older persons: aerobic or strength training. Exerc Sport Sci Rev 1998;26:61-89. 
3. Jackson AA. Limits of adaptation to high dietary protein intakes. Eur J Clin Nutr 1999;53(1S):S44-52. 
4. Wolfe RR. Protein supplements and exercise. Am J Clin Nutr 2000;72(Suppl):1-7. 
5. Borg G. Borg's perceived exertion and pain scales. Champaign: Human Kinetics, 1998. 
6. Durning JVGA, Womersley J. Body fat assessed from total body density and its estimation from skinfold thickness: measurement on 481 men and women aged from 16-72 years. Br J Nutr 1974;32:72-97. 
7. Siri WE. Body composition from fluid spaces and density. Analysis of methods in techniques for measuring body composition. Washington, DC National Academy of Sciences, National Research Council, 1961;223-4. 
8. Neu CM, Rauch F, Rittweger J, Manz F, Schoenau E. Influence of puberty on muscle development at the forearm. American Journal of Physiology Endocrinology Metabolism2001;20:E103-7. 
9. MacDougall JD, Sale DG, Alway SE, Sutton JR. Muscle fiber number in biceps brachii in bodybuilders and control subjects. J Appl Physiol. 1984;57:1399-403. 
10. Lemon PWR, Tarnopolsky MA, MacDougall JD, Atkinson A. Protein requirements and muscle mass/strength changes during intensive training in novice bodybuilders. J Appl Physiol 1992;73:767-75. 
11. Tarnopolsky MA, Atkinson SA, MacDougall JD, Chesley A, Phillips S, Schwarcz HP. Evaluation of protein requirements for trained strength athletes. J Appl Physiol 1992;73:1986-95. 
12. Thyfault JP, Carper MJ, Richmond SR, Hulver MW, Potteiger JA. Effects of liquid carbohydrate ingestion on markers of anabolism following high-intensity resistance exercise. J Strength Cond Res 2004;18:174-9. 
13. Rozenek R, Ward P, Garhammer J. Effects of high-calorie supplements on body composition and muscular strength following resistance training.J Sports Med Phys Fitness 2002;42:340-7. 


Texto: Patrícia Veiga de Oliveira; Luciana Baptista; Fernando Moreira; Antônio Herbert Lancha Junior

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