28 maio, 2012

COMER CARNE VERMELHA NÃO VAI TE MATAR ...

Se você tem acompanhado o mundo da nutrição por bastante tempo, você já deve ter percebido que saúde de acordo com a mídia e a saúde de acordo com a realidade são coisas bem diferentes Nas últimas semanas, andou circulando por aí uma notícia de um estudo que comprova que a carne vermelha é responsável por diversas doenças e causa a morte. Nas redes sociais, vi diversas pessoas comentando o assunto, umas dizendo que apesar do “mal”, iam continuar consumindo a carne porque gostavam muito, outras preocupadas com a notícia e alguns vegetarianos entoando o manta ” eu já sabia”. Claro que a notícia muito me revoltou, mas não tenho tempo (nem acho que seja útil) para ficar discutindo com cada um dos posts no facebook que vejo por aí. No entanto, posso (e devo), discutir o assunto aqui, neste espaço onde as pessoas buscam um pouco de informação diferenciada, além do que a sabedoria comum prega por aí e que por consequência, tem uma melhor compreensão do diversos fatores que compreendem a realização e análise de um estudo. O texto abaixo não foi elaborado por mim (um dia espero conseguir fazer um review tão bom de um estudo assim!), retirei do Marks Daily Apple, que obviamente, também não podia deixar passar o tão falado estudo. Por isso, traduzirei aqui o que foi dito lá. Também tem outros bons posts (todos em inglês) no site do Robb Wolf, no Constantly Varied, e no Caveman Doctor, falando sobre o assunto. Quem tiver curiosidade de ler, vale o clique. Como podem ver, a comunidade paleo/primal não deixou barato o recém publicado estudo. Dividi em 2 partes para não ficar cansativo. Boa leitura!

Nós já estamos no 74˚ dia do ano, o que só pode significar uma coisa: é o ponto alto para o mais novo episódio de ” A Ciência Diz Que a Carne Vermelha Vai Te Matar”, completo com um novíssimo estudo e uma cobertura sem intervalos da mídia. Sente-se e assista.
Se você não recebeu este estudo de algum membro da família, colega de trabalho, ou futuro-não-amigo-do-facebook, lembrando-o de que você está se matando ao comer carne vermelha, ou você é muito sortudo, ou sua caixa de entrada está com problemas. Graças à um estudo observacional chamado O Consumo de Carne Vermelha e a Mortalidade, publicado recentemente no Archives of Internal Medicine, várias notícias foram lançadas em todas as principais mídias do país:





Deixando o sensacionalismo da mídia de lado, o estudo parece indicar alguns problemas para os orgulhosos onívoros. Diferentemente de algumas publicações similares sobre o consumo de carne e mortalidade, este estudo diz que a carne vermelha não só causa a morte a partir de câncer ou doença cardíaca, ele diz que a carne vermelha causa a morte por qualquer coisa. Acompanhando mais de 120.000 mulheres e homens no Nurses’ Health Study, e no Health Professionals Follow-up Study, durante 28 e 22 anos, respectivamente, os pesquisadores descobriram que uma única porção diária de carne vermelha não processada foi associada a um aumento de 13% no risco de morte por todas as causas, enquanto uma única porção diária de carne vermelha processada – o equivalente à um cachorro-quente – foi associada a um aumento de 20%.
E caso isto não seja suficiente para se questionar, tem mais: os pesquisadores balançaram suas varinhas estatísticas e declararam que você pode fugir da morte por mais alguns anos, substituindo a carne vermelha pelos chamados “alimentos saudáveis”, como nozes, frango, ou grãos integrais. Na verdade, os pesquisadores sugerem que uma em cada dez mortes que atingiram os participantes poderia ser prevenida se todos tivessem mantido sua ingestão de carne vermelha a meia porção por dia!
Mas, se você tem acompanhado o mundo da nutrição por bastante tempo, você já deve ter percebido que saúde de acordo com a mídia e a saúde de acordo com a realidade são coisas bem diferentes – e mesmo os estudos científicos podem ser mal interpretados pelos pesquisadores que os conduzem. Seria o mais novo medo da “carne assassina” uma razão convincente para deixar de comer carne vermelha? É hora de colocar uma trava de segurança no seu bife orgânico letal, quando as crianças estiverem por perto? Ou há mais nesta história do que parece?
Observações vs. Experimentos
Antes de começarmos a nos aprofundar sobre o que o estudo diz, vamos nos dirigir para uma importante advertência que a mídia – e mesmo os pesquisadores, a não ser que eles tenham sido muito erradamente citados – parecem estar se confundindo. O que nós temos aqui é uma variação de um estudo observacional, não um experimento onde as pessoas mudam algo específico que estão fazendo e por isso fazem com que seja possível determinar causa e efeito. Observação é apenas o primeiro passo do método científico – um bom lugar para começar, mas nunca o lugar para se terminar. Estes estudos não existem para gerar conselhos de saúde e sim para levantar hipóteses que podem ser testadas e replicadas em um ambiente controlado para que nós possamos saber o que realmente está acontecendo. Tentar encontrar “provas” em um estudo observacional é como tentar fazer um pinguim amamentar. Simplesmente não vai acontecer… nunca.
Mesmo assim, os anúncios da mídia – e mesmo as citações dos próprios cientistas – sugerem que este estudo seja um caso grande de confusão de identidade. O pesquisador chefe Frank Hu diz que o estudo “fornece evidências claras que o consumo regular de carne vermelha, especialmente a processada, contribui substancialmente para a morte prematura”, apesar do fato de que o estudo é incapaz de fornecer estas evidências. É como se alguém tivesse dado uma de Campbell (referente ao autor do China Study). Somente um experimento de verdade, com controles e variáveis manipuladas, poderia começar a confirmar causas.
Mas, a super extrapolação do estudo não é supreendente. Um experimento conclusivo é o que todo estudo observacional secretamente espera ser, lá no fundo do seu coração confuso e não-randomizado. E assim como mães que desejam que seus filhos sejam atores, alguns pesquisadores querem que seus estudos sejam mais talentosos e notáveis do que eles realmente são – levando ao equivalente científico de uma criança de quatro anos andando desajeitadamente em um concurso de beleza para crianças. Nosso estudo em questão é um ótimo pedaço de literatura observacional, mas a medida que seus autores (ou a mídia) começam a querer embelezá-lo, a coisa vai por água a baixo.
Questionário de Frequência de Alimentos: Um teste de memória de super-homem e uma honestidade de santo
Para começar esta análise, vamos dar uma olhada em como o estudo foi conduzido. Como os pesquisadores explicam, todos os dados sobre a dieta vieram de uma série de questionários de frequência de alimentos (QFA) que os participantes do estudo preenchiam a cada 4 anos, começando em 1980 e terminando em 2006. (Se você é corajoso, pode ler os questionários você mesmo (PDF) e tentar imaginar quanto a pessoa normal, não consciente da dieta, pode responder sem nenhum cuidado ou preocupação).Os dados sobre estilo de vida e cuidados médicos vieram de um outro questionário, realizado a cada 2 anos.
O texto completo do estudo oferece alguns detalhes adicionais (ênfase da autora do texto):
"Em cada QFA, nós perguntamos aos participantes, com que frequência, em média, eles consumiam cada alimento, em uma determinada porção padrão. Havia 9 possibilidades de resposta, indo de “nunca ou menos de uma vez por mês” a “6 ou mais vezes ao dia”. Os itens do questionário sobre carne vermelha não processada incluiam “carne bovina, carne de porco ou cordeiro como prato principal” (a carne de porco foi questionada separadamente a partir de 1990), “hambúrguer” e “carne bovina, carne de porco ou cordeiro como em sanduíche ou prato misto.” (…) A carne vermelha processada incluía “bacon” (2 fatias, 13g), “cachorro quente” (um, 45g) e “salsicha, salame, mortadela, e outras carnes processadas” (1 porção, 28g)."
Note que um dos alimentos listados como “carne não processada” – e provavelmente um dos maiores contribuintes para esta categoria – é o hambúrguer, basicamente o que compõe uma fast food. Embora este estudo tenha acompanhado o consumo de grãos e cereais integrais, ele não acompanhou o consumo de grãos e cereais refinados, então nós já sabemos, de cara, que não podemos contar o pão que envolve o hambúrguer (ou qualquer um dos componentes que mal podem ser considerados comida, de um lanche do McDonald’s). E, a não ser que grande parte dos participantes escolhessem deliberadamente a carne orgânica, pode-se dizer que a carne bovina não processada que eles estavam se alimentando provavelmente continha aquela gosma rosa tratada com amônia, que tem causado um alvoroço nos consumidores de carne convencional ultimamente.
Depois, nós encontramos esta preciosidade:
"A reprodutibilidade e validade destes QFAs foram descritas em detalhe, em outro lugar."
Alerta! Isso é importante! Qualquer um que tenha passado um bom tempo na Terra deveria saber, esperar que as pessoas sejam honestas sobre o que elas comem é como esperar que um daqueles banners “Perca 10kg na barriga” te leve a algum lugar que não seja um monte de spam: o idealismo é fofo e tal, mas a realidade é outra.
E a mesma coisa acontece com os questionários de frequência de alimentos. Desde que estes questionários surgiram no mundo, os cientistas lamentam a maior de suas falhas: as pessoas tendem a reportar o que elas pensam que deveriam estar comendo, ao invés do que elas realmente comem. E isso além do fato de que as pessoas mal conseguem lembrar -se do que comeram ontem, quanto mais do que tem comido durante o último mês ou ano.
O resultado disso é que os pesquisadores comparam os resultados dos questionários de frequência de alimentos com “registros de dieta” mais acurados – onde os participantes pesam e registram meticulosamente tudo o que comem por uma semana ou duas – para ver se os dados batem. Se nós seguirmos a última citação dos links de referência, nós encontraremos um dos relatórios de validação para os QFAs, usados no Health Professionals Follow-up Study. Aqui é que a coisa fica interessante:
"Alimentos subestimados pelos QFAs comparados com os registros de dieta, incluíam carnes processadas, ovos, manteiga, laticínios com bastante gordura, maionese e molhos cremosos para salada, grãos refinados, doces e sobremesas, enquanto a maior parte dos vegetais, frutas, nozes, bebidas energéticas e condimentos foram sobrestimados pelos QFAs."
Isso não deveria ser uma surpresa, se considerarmos a psicologia humana. Ao não ser que nós literalmente vivêssemos em uma caverna, a maioria de nós é constantemente inundada com mensagens dizendo que laticínios com alto teor de gordura, carne, doces, sobremesas e qualquer outra coisa deliciosa e cremosa nos faz engordar ou vai provocar um ataque cardíaco. Alguém tem alguma dúvida de que as pessoas tendem a reportar que consomem menos das comidas “más” e que comem mais das boas? Quem quer admitir – ainda mais na terrível permanência de um questionário de alimentos – que sim, eles realmente afundam suas saladas no molho caesar, que eles escolhem pão branco porque o pão integral de 12 grãos tem gosto de madeira adocicada e que às vezes eles passam dias em que o único vegetal que consomem é katchup? Se os questionários de frequência de alimentos estivessem ligados a um detector de mentiras, nós poderíamos ver dados muito diferentes (e alguns participantes desaparecendo misteriosamente).
Outra referência no nosso estudo do dia nos leva a um relatório de validação do questionário do Nurses Health Study. E aqui encontramos a mesma tendência:
"A média das quantidades diárias de cada alimento foi calculada, para os questionários e para os registros de dieta, e foram comparadas; as diferenças observadas sugerem que as respostas dos questionários tendiam a representar exageradamente os alimentos socialmente desejáveis."
Claro, se todos subreportassem ou sobrereportassem seu consumo de alimentos com a mesma magnitude de não acuracidade, ainda seria possível encontrar alguma associação confiável entre os questionários de alimentos e os resultados na saúde. Mas acontece que a maneira com a qual cada um mente nos seus relatórios varia bastante, baseado nas características de cada um. Usando uma versão australiana modificada dos questionários do Nurses Health Study, um estudo da Austrália mediu qual a acuracidade que as pessoas reportam seu consumo de alimentos, baseando-se em seu gênero, idade, status médico, IMC, ocupação, nível escolar e uso de suplementos alimentares. Assim como outros estudos de validação, os resultados foram comparados ao Almighty Weighted Food Record (que chamamos aqui de “registros de dieta”).
O resultado surpreendente? As pessoas com uma ” condição médica diagnosticada” – incluindo colesterol alto, triglicérides alto, diabetes, pressão alta, derrame cerebral, câncer e doenças cardíacas – eram muito mais propensas a omitir seu real consumo de carne vermelha do que as pessoas que não tinham uma condição médica diagnosticada, que geralmente sobrestimam seu consumo, se compararmos o questionário com o registro de dieta. Por que isso acontece é um dos grandes mistérios da vida, mas pode ter a ver com o fato de que as pessoas que desenvolvem doenças relacionadas à dieta e estilo de vida dão menos atenção consciente ao que comem. (Neste estudo, as mulheres também foram muito mais propensas a não responder acuradamente a sua ingestão de diversos tipos de alimentos – um fenômeno estudado em profundidade por outros pesquisadores).
Então, o que isso significa para os estudos baseados em questionários de frequência de alimentos, como este que está bombando nas notícias? Infelizmente para os amantes da acuracidade científica, isso significa que o consumo de carne e doenças modernas podem ser estatisticamente mais prováveis de aparecerem juntas por pura sorte. Se as pessoas doentes tem uma tendência – por qualquer que seja a razão – de dizer que eles estão comendo mais carne do que realmente estão, isso terá efeitos profundos em qualquer associação entre doenças e dieta que aparecer em estudos observacionais, onde as correlações dependem fortemente da acuracidade dos dados. E se os resultados do estudo australianos são aplicáveis não somente lá como aqui também, isso pode significar que a carne é praticamente condenada a ser culpada por associação, quando os questionários de frequência de alimentos estão envolvidos.


Texto: Bruna Machado
Fonte: Site - PrimalBrasil.com

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