02 junho, 2011

EXERCÍCIO E DENSIDADE MINERAL ÓSSEA ...

O esqueleto humano, muitas vezes, é visto como algo incapaz de se adaptar e sofrer alterações estruturais importantes, nas quais poderiam influenciar o cotidiano das pessoas. Sendo até mesmo esquecido dentro de uma visão sistêmica. Talvez, isso explique o fato de existir uma incidência alta de patologias a acometerem esse sistema (esquelético), como: a osteopenia, osteoporose, raquitismo, osteomalácia, entre outras.O intuito desse texto é quebrar a visão limitada e reducionista do sistema esquelético, mostrando o esqueleto como uma estrutura viva, capaz de se adaptar, se reparar e influenciar grandemente a vida e a saúde das pessoas, além de demonstrar como a atividade física pode interagir nesse processo, talvez de maneira preferencial a outros tipos de intervenção.

Introdução

Vamos começar pensando na utilidade do esqueleto, pois assim ficará mais claro o porquê de não se colocar sua importância em segundo plano.

O esqueleto tem a função de oferecer ponto de fixação para os músculos (conferindo a possibilidade de movimento), suporte para os tecidos moles, proteção a certos órgãos vitais e reservar minerais (como cálcio, sódio e potássio) que podem ser mobilizados e redistribuídos conforme for necessário ao organismo. Além de realizar hemopoiese (formação de células do sangue) (1).

Mesmo após a calcificação, os ossos passam por extensas e constantes remodelações para responder aos estímulos do ambiente. Para tanto, o osso é constantemente reabsorvido por células chamadas osteoclastos, e novos tecidos são depositado por células chamadas osteoblastos. Essa capacidade adaptativa do osso é norteada basicamente pela pressão exercida sobre ou contra ele, por hormônios e/ou pela nutrição. Tanto os osteoclastos como os osteoblastos são originados por células osteoprogenidoras (1).

Pressão

Aparentemente a pressão exercida no osso (força gravitacional e/ou funcional), é o fator mais relevante quando tratamos a densidade mineral óssea. Sais inorgânicos e fibras colágenas são depositados no osso como resposta ao tipo, quantidade e intensidade do estímulo. Porém se essas forças não forem exercidas, parte dos sais minerais depositados serão retirados para participarem de outras funções orgânicas (1,4).

A atividade física é uma forma de intervenção barata e não farmacológica, que pode maximizar a densidade óssea desde os primeiros até os últimos anos de vida (2,6), na qual fatores relacionados irão interferir diretamente no resultado final do trabalho. Neste contexto, a intensidade e a especificidade do exercício podem ser apontadas como os principais.

Ao se comparar exercícios resistidos, estudos relatam que a alta intensidade é mais relevante que a baixa, no tocante ao aumento da DMO, além de oferecerem outras melhoras funcionais relacionadas como: ganhos de força muscular e melhora da coordenação motora e do equilíbrio (2, 3, 4,7). Mesmo sem alterar a DMO, de forma significativa, exercícios resistidos de baixa intensidade foram satisfatórios em oferecer estímulos suficientes para alterar os marcadores bioquímicos (indicadores do metabolismo ósseo), aumentar a alcaline fosfatase e a osteocalcina (marcadores anabólicos), e reduzir a piridolina (marcador catabólico), porém de forma inferior aos exercícios de alta intensidade (3).

Em se tratando de exercícios predominantemente aeróbios, mesmo os de longa duração de treinamento, a DMO parece ser preservada em corredoras que trabalham abaixo do limiar anaeróbio (5). Acima desta intensidade, distúrbios hormonais talvez pudessem trazer alterações metabólicas com reflexo na DMO.

Diferente do sistema muscular, que sofre adaptações de uma forma relativamente rápida, o sistema esquelético necessita de um tempo maior para se modificar estruturalmente. A remodelagem completa de certos ossos pode levar aproximadamente quatro a seis meses (4).

O aumento da DMO se dá de forma bastante específica, por exemplo, jogadores de squash, quando comparada a DMO entre o braço não dominante e o dominante, esse último apresentou uma maior DMO (4). Esse fato nos leva a concluir que os estímulos aplicados devem ser o mais específicos possíveis.

As áreas que geralmente apresentam menor DMO são: a coluna lombar, o colo do fêmur e o pulso (2, 3, 4,5). Essas regiões devem ter uma atenção especial, principalmente a coluna lombar, pois são suscetíveis a comprometerem a vida e a saúde das pessoas por estarem diretamente associadas à locomoção e a atividades da vida diária.

Atividades, nas quais há pouca incidência da gravidade parecem não desenvolver a DMO de forma satisfatória. É o caso da natação e do ciclismo, que não revelaram aumento na DMO na coluna lombar, em análises experimentais. (4,5). Um estudo comparou a DMO, da coluna lombar, de jogadoras de vôlei, basquete, nadadoras e não atletas. Os resultados demonstraram que as nadadoras apresentaram o menor valor de DMO, mesmo quando comparadas as não atletas. Esses dados sevem para reforçar que o impacto é um estímulo muito importante para o tratamento dessa patologia. (5).

Exercícios, atividades físicas de lazer (principalmente entre os dez e vinte anos de idade) e de locomoção (cotidiano), podem contribuir para aumentar e preservara a DMO independentemente da idade (4, 6). É na pré-adolescência e adolescência que ocorre o pico de massa óssea, e é nessa fase que grande parte da população está inserida no contexto escolar, conferindo mais uma justificativa e importância para se ter um trabalho de base em educação física dentro da escola. Deve-se estimular, de forma ótima, o pico de massa óssea, na qual provavelmente ocorrerá a maximização da DMO na idade adulta.

Hormônios

O estrógeno, hormônio sexual feminino, tem papel crítico na manutenção da DMO. Tanto que, naturalmente após a menopausa ocorre uma perda de massa óssea de forma acelerada correlacionada a diminuição nos níveis desse hormônio(4,7).

Talvez por isso, mulheres acima dos quarenta anos (principalmente caucasianas), faixa populacional mais atingida por problemas relacionados a uma baixa DMO, usam muito comumente, a reposição hormonal. Essa terapia é considerada por alguns, a mais importante intervenção para o tratamento e prevenção da osteoporose, embora ainda não totalmente esclarecida (4, 7).

A terapia de reposição hormonal tem o objetivo de aumentar a absorção e reduzir a excreção urinária do cálcio (efeito principal do estrógeno). Isto ocorre basicamente pela inibição do parato hormônio, que aumenta a reabsorção óssea, e estimula a calcitonina (hormônio de efeito contrário ao parato hormônio). Pacientes submetidos à reposição hormonal apresentam também seus marcadores bioquímicos do metabolismo ósseo modificados positivamente (7). Entretanto é necessário levar em consideração alguns aspectos desse tipo de intervenção.

Os maiores ganhos obtidos com a reposição hormonal se dão aproximadamente três anos após o início do tratamento. Porém é justamente nesta fase que sua eficiência cai e praticamente se encerra. Além disto os hormônios necessitam de limitados receptores específicos determinados geneticamente para sua melhor atuação (4,7). Pessoas geneticamente menos propensas a este tipo de intervenção não poderiam se valer desses possíveis benefícios ainda não, totalmente, esclarecidos.

Ainda paira sobre a terapia de reposição hormonal uma possibilidade de desenvolver câncer, principalmente o de mama, em pessoas propensas geneticamente (4, 7).

Nutrição

O aspecto nutricional também é relevante na DMO, principalmente em conjunto com a atividade física. O consumo de cálcio e vitamina D (necessária para a absorção do cálcio) deve ser adequado para dar suporte a formação de osso advinda de um programa de exercícios físicos. A literatura sugere que o consumo de um grama a um grama e meio de cálcio por dia seja suficiente (1, 7). Entretanto, é necessário lembrar que esse cálcio é absorvido no trato gastrintestinal, e que com o passar dos anos, esta ação absortiva diminui. No caso de adultos com idades avançadas, provavelmente uma maior quantidade de cálcio na dieta, como única forma de intervenção, não promoverá grandes resultados.

Considerações Finais

A DMO representa um reflexo direto na qualidade e expectativa de vida das pessoas, principalmente nas de idade mais avançada, sendo necessário dentro de uma visão sistêmica, levar em consideração às adaptações as quais o sistema esquelético está sujeito.

Diferentes formas de tratamento podem ser prescritas abrangendo diferentes áreas do conhecimento no campo da saúde. A atividade física feita de forma eficiente, respaldada cientificamente, com valores ótimos de volume e intensidade, de forma específica, levando em consideração fatores intervenientes de cada caso, representa uma alternativa barata, não farmacológica, não invasiva, segura e capaz de influenciar diretamente a qualidade dessas pessoas.

Referências Bibliográficas

1) SPENCE, Alexander p; Anatomia Humana Básica; ed. Manole; 1991.

2) KELLEY GA, KELLEY KS, TRAN ZV; Resistence training and bone mineral density in women; American Journal of Physical Medicine & Rehabilitation, 2001

3) VINCENT, Kevin R. And BRAITH, Randy W.; Resistence exercise and bone turnover in elderly men and women; Medicine & Science in Sports & Exercise, 2002

4) GERALDES, Armandio A. R; Exercício como estratégia de prevenção e tratamento da osteoporose: potencial e limitações; Revista Brasileira de Fisiologia do Exercício, vol. 2 nº 1, 2003.

5) CÉSAR, Marcelo C; PARDINI, Dolores P. E BARROS, Turíbio L; Efeitos do exercício de longa duração no ciclo menstrual, densidade óssea e potência aeróbia de corredoras; Revista Brasileira de Ciência E Movimento vol. 9, nº 2, pp 07-13, 2001.

6) FLORINDO, A. A; LATORRE, Maria do Rosário D. O; TANAKA, Tomoe; JAIME, Patrícia C; ZERBINI, Cristiano A. F; Atividade física habitual e sua relação com a densidade mineral óssea em homens adultos e idosos; Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde, vol. 5, nº 1, 2000.

7) BEMBEN, Debra A. And FETTERS, Nicole L.; Tthe independent and additive effects of exercise training and estrogen on bone metabolism; Journal of Strength and Conditioning Research, 14 (1), 114-120, 2000.

Texto: Vandeir Gonçalves
Fonte: GEASE

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