06 outubro, 2010

INGESTÃO DE CAFEÍNA COMO ESTRATÉGIA ERGOGÊNICA NO ESPORTE: SUBSTÂNCIA PROIBIDA OU PERMITIDA ?

Recentemente, a Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (SBME) atualizou suas diretrizes publicadas em 2003 sobre "Modificações dietéticas, reposição hídrica, suplementos alimentares e drogas: comprovação de ação ergogênica e potenciais riscos para a saúde". Nesta atualização os autores relatam que "Substâncias antes permitidas, que foram incluídas no programa de monitoramento de 2008, portanto atualmente proibidas são: bupropiona, cafeína, fenilefrina, fenilpropranolamina, pipradol, pseudoefedrina, sinefrina". Contudo, acreditamos que os autores tenham cometido um equívoco, uma vez que essa afirmação não procede, em particular no que se refere à cafeína, tema abordado nesta carta. Nos últimos anos, a ingestão de cafeína tem sido utilizada como estratégia ergogênica no esporte, previamente à realização de exercícios físicos aeróbios, e anaeróbios, com o intuito de protelar a fadiga e, consequentemente, melhorar o desempenho físico. Neste sentido, os achados até o presente momento têm apontado a cafeína como um eficiente agente ergogênico em exercícios de diferentes naturezas. Ressalta-se, entretanto, que a dosagem de cafeína é fator determinante na melhora do desempenho físico, pois o desencadeamento das respostas fisiológicas e metabólicas parece estar atrelado à quantidade ingerida. Assim, embora doses de 3 a 10mg.kg-1 de peso corporal de cafeína possam melhorar o desempenho físico em exercícios físicos de diferentes naturezas, o intervalo ótimo sugerido é de 3 a 6mg.kg-1 de cafeína pura.

A utilização indiscriminada de cafeína por parte de atletas, no início da década de 1980, com objetivo de melhorar o desempenho atlético, fez com que esta substância fosse incluída na lista de substâncias proibidas do Comitê Olímpico Internacional (COI), que estipulou valor limítrofe de 15µg/mL de cafeína na urina para caso positivo de doping. Porém, o uso de cafeína somente tornou-se evidente a partir dos Jogos Olímpicos de Los Angeles (1984), quando alguns membros da equipe de ciclismo dos Estados Unidos declararam publicamente terem usado esse alcalóide como estimulante durante as competições, o que fez com que o COI alterasse o valor limítrofe para 12µg/mL de cafeína na urina para caso positivo de doping.

Até final do ano de 2003, a cafeína fazia parte da lista de substâncias proibidas pela Agência Mundial Anti-Doping (WADA), na classe de estimulantes (A) e o limite estipulado para caso positivo de doping até aquele momento era de 12µg/mL de cafeína na urina. Contudo, devido às dificuldades de se estabelecer um valor limítrofe, desde o ano de 2004 a cafeína foi incluída junto com outras substâncias em um programa de monitoramento da WADA, não sendo essa considerada substância proibida, condição esta que se estende até os dias atuais.

Vale ressaltar que, mesmo não sendo uma substância proibida pela WADA, estudos de acompanhamento realizados após a retirada da cafeína da lista de substâncias proibidas não observaram aumento significante no consumo da mesma no meio esportivo.

Texto: Leandro Ricardo Altimari
Fonte: Revista Brasileira de Medicina do Esporte

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